O show de Truman: Até onde vai o sistema?

“O Show de Truman” aborda vários temas contemporâneos. Uma das principais discussões é a possibilidade de controlar eventos e pessoas com um aparato técnico e científico adequado. Este artigo, se aprofunda na trama do filme afim de demonstrar a impossibilidade de exercer controle absoluto sobre os seres humanos.

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Uma manhã comum para Truman

Quem controla o ambiente, controla o comportamento. Diversas correntes de pensamento concordam que é possível manipular acontecimentos, desde que se estabeleça um sistema adequado. De acordo com essa perspectiva, pode-se construir identidades e produzir comportamentos individuais e coletivos, manipular a natureza, etc., desde que o contexto no qual se insere a ação seja controlável. Para isso, é preciso que o sistema atue diretamente sobre o objeto, a fim de manipular seu ambiente e, dessa maneira, controlar este objeto.

Se aceitarmos isso, cabe perguntar: até onde esse sistema pode cercear nossa liberdade? Este alguém que nos manipula pode exercer controle absoluto, de modo a nos manter sempre ignorantes de sua influência?

Essa questão é materializada magistralmente por Peter Weir no filme “O Show de Truman: o Show da Vida”. A trama gira em torno de Truman Burbank (interpretado por um Jim Carey irretocável, diga-se de passagem), um “homem comum” que, sem saber, tem toda a sua vida transmitida ao vivo para todo o mundo. O show se passa na ilha de Seahaven, um set gigantesco monitorado por mais de cinco mil câmeras. Todos, com exceção de Truman, sabem o que se passa e agem de acordo com um roteiro mais ou menos maleável, mas que tem sempre por primeira missão, evitar que o astro descubra o segredo: todos os acontecimentos da sua vida foram habilmente conduzidos por um “gênio”, Christof, que vive no set e cria toda sorte de artifícios para que Truman aja conforme a sua vontade.

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O maior desafio é manter Truman no set, afinal, fora dele, o “astro” perceberia a “farsa” que é a sua vida. Para resolver esse problema, os produtores se utilizam basicamente de duas estratégias. A primeira delas é de caráter midiático: todas as notícias transmitidas pela mídia de Seahaven são voltadas para enaltecer a pequena ilha, de modo a mostrar que não há necessidade alguma de sair de lá. Em certo momento, o jornal local publica uma matéria que diz que a cidade foi eleita “O melhor lugar do mundo para se viver”. Além disso, todos os dias, a rádio local lembra que “Voar é um perigo!”, e a agência de viagens é tenebrosamente decorada com cartazes alertando sobre o risco de desastres aéreos.

O segundo mecanismo de dominação é de caráter afetivo. Truman, enquanto criança, velejou durante uma tempestade com seu pai, que acaba “morrendo”. Esse acontecimento causou um trauma tão poderoso em Truman, que ele não é capaz sequer de pegar uma balsa em um dia de céu claro. Além disso, diversos constrangimentos foram criados em sua infância para aleijar seu “espírito aventureiro”. Na escola e em casa, Truman foi metodicamente podado e ridicularizado ao manifestar o menor interesse em sair da ilha.

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Decoração tenebrosa da agência de viagens

Uma das grandes reflexões que “O Show de Truman” nos propõe diz respeito à nossa realidade. É possível que tudo aquilo que pensamos ser, inequivocamente, o “verdadeiro”, seja um engodo fabricado por alguém? Sim, é possível, e o filme é uma bela metáfora para mostrar as maneiras que: mídia, governos e mercados atuam para exercer controle direto sobre nossas “vontades”. Mas, resta saber: podemos tomar consciência dessa estrutura que atua sobre nós? E mais, uma vez conscientes, podemos nos libertar desse controle? Após demonstrar toda a complexa teia de operações que torna o reality show possível, “O Show de Truman” nos conduz a uma brecha do “sistema”.

Na juventude, Truman se apaixonou por Sylvia que, apesar de fazer parte do elenco do programa, não fora a escolhida pelos produtores para ser sua esposa. No entanto, a atração é tão forte que, mesmo diante das várias interferências da produção, os dois se encontram e desenvolvem um breve relacionamento. Durante um de seus encontros, Sylvia conta a Truman que ele vive em um reality show, que tudo é uma armação! Os produtores são ágeis e rapidamente surge no local o suposto pai de Sylvia, que afirma que a “filha” tem esquizofrenia. Este episódio marca profundamente Truman que passa a viver com uma semente de dúvida. Dúvida, que alguns anos depois, desembocaria na descoberta da farsa em que vive.

Esse acontecimento da juventude é crucial na trama por dois motivos. O primeiro é que demonstra que, por mais que se exerça controle e observação constante, o sistema nunca será absoluto. São muitas variáveis para dominar. Por mais rígido, compacto e complexo que seja, sempre pode haver um acontecimento imprevisto, portanto, incontrolável.

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Truman e Sylvia

O segundo significado desse acontecimento consiste na escolha pelo filme da paixão como elemento fundador da dúvida. Afinal, existe algo mais incontrolável, espontâneo e poderoso que um grande amor? Por ele, mais cedo ou mais tarde, realizamos loucuras! Eis aí escancarada a brecha do sistema: a racionalidade, capaz de erigir um mundo pleno de mecanismos de dominação, não pode dar conta sozinha do ser humano. Somos seres que também possuem afeto, e estes afetos são irracionais, insondáveis.

Após vários percalços, Truman finalmente entende que existe algo de muito errado em sua vida. E esse sentimento o leva a desafiar o oceano em busca da verdade. Mas Christof ainda não desistiu e lança sobre o veleiro de Truman os ventos mais fortes que a tecnologia pode fabricar, afim de forçar seu retorno à Seahaven. Não é o bastante. Truman resiste, e alcança finalmente os limites do set de filmagem. Então, o diretor sai das sombras e faz um monólogo como última tentativa de manter o astro em seu mundo. Por ser o criador do programa e por assistir Truman 24hs por dia há décadas, Christof alega que ninguém poderia conhecê-lo melhor do que ele. Truman é categórico: “Você nunca pôs uma câmera em minha cabeça!”, e sai por uma pequena porta.

O Show de Truman encena uma odisseia. A busca pela verdade, pelo sentido e pela autonomia. Além de deixar uma incômoda e inusitada dúvida – é impossível assistir e não conferir o espelho do banheiro, atrás de um fundo falso e uma câmera – o filme transfere para a tela, uma pergunta que filósofos, literatos, ativistas e religiosos vêm se fazendo há pelo menos dois milênios: É possível que haja algo ou alguém nos enganando quanto ao mundo em que vivemos? Certamente. No entanto, isso também não significa que essas amarras eliminem nossa liberdade. Quando se trata de seres humanos, nenhuma fórmula, por mais complexa que seja, pode moldar completamente nosso comportamento. Nunca se pode, como disse Truman Burbank, colocar uma câmera em nossa cabeça, quanto mais em nosso coração.

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Um “adeus” aos telespectadores

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Fonte: Obvious

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